SISTA K - Salvador - Bahia








“Pinto personas gordas, negras, peitudas, tatuadas, orixás porque faz parte de mim. Quando comecei a pintar percebi que várias minas já pintavam personas femininas magras, loiras e de olhos azuis mesmo sendo negra de cabelo crespo. Sei que isso é uma influencia cultural do que é "bonito" ou "feio", que o padrão de beleza imposto pela sociedade reflete diretamente no dia-a-dia dessas mulheres que lutam pra fazer parte do mesmo padrão que as excluí. Por isso resolvi pintar mulheres de verdade, do meu cotidiano, e mostrar o quanto somos bonitas também. Mesmo que socialmente não nos encaixemos nos padrões estamos aqui lindas e vivas.
Fora essa parte das personas eu comecei a pintar algumas entidades do candomblé (com as devidas permissões e pedidos) em homenagem a Lee27, grande grafiteiro e fundamentado na religião. Entidades femininas, que tem uma força muito grande. Pra mostrar também nossa beleza religiosa, a influência que isso tem pra quem é de Salvador e carrega herança de Africa consigo.”




Filha de uma carioca que já trabalhou de artesã a animadora de festas e um baiano “vida loka”, Sista K nasceu em São Paulo em 1986. Sabe por historias de sua mãe que o avô boemio, que foi assassinado antes de conhece-la, já houvera também exercido a função de artesão, além de músico, e que sua avó entre as diversas funções exercidas também foi “vida loka”.

O bairro paulistano Jaraguá foi onde viveu até os 7 anos de idade, quando mudou-se com a mãe para Cajazeiras, periferia de Salvador. Embora atualmente também não viva mais neste bairro, considerado um dos maiores da América Latina, é de lá que ela traz amizades que perduram até hoje e apesar das dificuldades vividas devido às carencias da região, guarda boas recordações de sua infância, como afirma:

“- Cajazeiras me ‘criou’ pro mundo e é por isso que gosto tanto. Aprendi a ser criança brincando na rua, sem precisar comprar brinquedos. Aprendi a ser ‘rueira, gangueira, maloqueira’ (risos)”

Cita o povo soteropolitano como caloroso e muito receptivo, acrescentando que a cidade com suas belezas geográficas e clima quente não pertence mais somente aos baianos, mas sim a todos, “principalmente a quem pode pagar por ela”, com alusão a alguns turistas que aproveitando da receptividade local e poder financeiro compram “casas, praias, mulheres e crianças”
O nome Sista K com o qual assina suas pinturas na rua surgiu da idéia de montar uma crew com as amigas que por afinidades eram consideradas irmãs. Assim surge Sistas Crew (em referência a palavra em inglês Sister) inicialmente intitulando as componentes pelo nome do grupo seguido da inicial do nome civil de cada uma. Assim eram Sista R, Sista T, Sista S e a própria Katia que aqui é apresentada. A idéia do grupo não vingou e como legado o nome artístico se manteve.

Aos 13 anos começou andar de skate e conheceu a música Rap que por sua vez a levou a conhecer os outros elementos do Hip Hop, entre eles o graffiti que tanto chamava sua atenção. Mas foi somente aos 21 anos, por influência de seu companheiro Finho, que começou a pintar nas ruas. Hoje define o graffiti como um elemento do Hip Hop, instrumento de comunicação não verbal e direta, controverso e subversivo que pode ser agradável ou perturbador.
“- Serve pra me fazer feliz porque se tornou mais uma das coisas que faço e se é feito por mim serve pra gritar por mim, pra transmitir mais do que falo. É uma prolongação do meu discurso politico em relação as mulheres, mas é também meu momento de comungar com os meus. É uma tradução de mim, pode ser poético, mas sempre será marginal por escolha”, acrescenta ela.

Sempre pesquisando sobre mulheres artistas como referencia para seus trabalhos, cita a ilustradora Cristy C. Road como sua predileta. Esta afeição à artista estadounidense se deve não só a suas obras, mas também a sua postura feminista com a qual Sista K se identifica. 
O feminismo, assim como o veganismo, aparecem para ela a partir de seu contato, ainda no inicio da adolescencia, com o punk/hardcore, que foi o grande divisor de aguas em sua vida. Através das músicas e shows, das mensagens em camisetas e panfletos iniciou um processo de conscientização do universo que a cercava despertando-a para o que ela comenta serem muitas lutas em ritmo frenético contra o machismo, cissexismo, racismo, homofobia, especismo, lesbofobia, transfobia, dentre outras.

Como militância nestas lutas e devido praticar artes marciais desde a infância, formou um grupo que realiza oficinas de defesa pessoal restrita a mulheres. Esta restrição se dá, segundo ela, pelo motivo de a maioria dos casos de agressão sofridos pelas mulheres ter os homens como principais autores, seja em situações familiares, no trabalho ou mesmo nas ruas.

Considerando necessário deixar de consumir alimentos e produtos de origem animal (carne, ovos, mel, leite, couro, lã, seda, etc) ou que os utiliza como cobaias (industria farmacêutica e cosméticos), ainda por volta dos 15 anos de idade assumiu por completo o veganismo como posicionamento ético e político.

Foi a partir dai que juntamente com amigas criou a cooperativa Rango Vegan, com a proposta de alimentação popular e acessível, atuando com um carrinho na rua vendendo lanches desse segmento alimentar. Embora apos 3 anos tenha deixado o projeto para dedicar-se a atividades relacionadas ao graffiti, ainda hoje faz esporadicamente alguns trabalhos relacionados ao veganismo como oficinas de culinaria baiana vegana e sua nova idéia, o RestauHome que consiste em um restaurante domiciliar, elaborando um cardápio completo na casa do cliente.

Mais Sobre:




Sista K
Recomenda

Texto Alisando o Nosso Cabelo de Bell Hooks
(clique na imagem abaixo para ir para o texto)


Livro Jaulas Vazias de Tom Regan

Livro Libertação Animal de Peter Singer

Festival Vulva la vida
(clique na imagem para ir para o site do festival)

Filme Enough de Michael Apted
(chegou ao Brasil com o título Nunca Mais)


Sista K recomenda ainda pesquisar sobre Audre Lorde e Alice Walker


* Fotos e indicações enviadas por Sista K e texto por Emol a partir de entrevista realizada.

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