ZECA - Campina Grande - Paraíba











“Graffiti pra mim, muito mais do que uma técnica de pintura (há quem ache que qualquer coisa feita com spray ou até mesmo aerógrafo é graffiti), é uma atitude de pintar livremente sem censura, interferir na paisagem urbana, chocar, fazer pensar, criar polêmica, despertar algum censo crítico, levar arte a todos, independente de classe social, nível de instrução;  do mendigo ao playboy, da velhinha ao prefeito.”



Nascido em 1986 em Campina Grande, na Serra da Borborema, agreste paraibano, Zeca é Raoni Oliveira. Graduando em Design de produtos na UFCG, trabalha com ilustração publicitária e free lance em design gráfico. É pai de Cauã, marido de Débora e torcedor fanático do Campinense Clube. A seguir ele descreve um pouco de sua história de vida e trajetória artística:

“Desde moleque alguém cismou que eu era parecido com o Zeca Urubu, do desenho do Pica-Pau. Com o tempo simplificou-se pra Zeca, que inevitavelmente chegou aos muros junto com os meus primeiros graffiti.
Meus avós maternos são de Serra Branca, na região conhecida como cariri paraibano. Minha mãe, Mariene, ficou órfã cedo, e veio a Campina Grande estudar, morou na casa de familiares, se formou em Letras, tendo lecionado Língua Portuguesa em escolas públicas do estado e do município a vida toda. Conheceu meu pai, Jorge, em uma de suas viagens pelo nordeste. Filho de pescador, sendo o mais velho de muitos irmãos, cresceu na vila de pescadores Mangue Seco, na Bahia, bem próximo à divisa com o estado de Sergipe. Perdeu o pai cedo, e pescou pra sustentar os irmãos até que todos estivessem criados e independentes, quando se mudou para Aracaju, capital de Sergipe, onde vive até hoje. Tenho dois irmãos por parte de pai, Silas e Saulo, baianos, um pouco mais novos que eu, que só conheço via internet, e uma irmã mais nova, Isabela, que encontrei duas vezes na vida, e que hoje tem 12 anos de idade.
Me criei em duas casas, uma no maior bairro de Campina Grande, as Malvinas, na Zona Oeste, e a Rua Otacílio de Albuquerque, no centro da cidade. Aos 16 anos, saí da casa da minha mãe nas Malvinas e vim morar de vez no centro da cidade, com familiares.
As Malvinas, bairro onde me criei é bem extenso, e fica localizado no coração da Zona Oeste da cidade. Na infância, andei por todo o bairro, bem como bairros vizinhos, com minha companheira bicicleta. Apesar de tão grande, o maior bairro da cidade sofre com o descaso das autoridades. É fácil encontrar por lá igrejas protestantes e bares, mas não se encontra uma biblioteca pública, uma praça, uma quadra, um centro esportivo... Tenho um carinho muito grande pelo bairro onde minha mãe vive até hoje.
Moro na parte sul do centro de Campina Grande, onde ele já não é mais tão comercial. Por aqui circula todo tipo de gente, e nem sempre são pessoas amigáveis. Minha casa fica bem próxima ao Parque do Povo, onde acontece o Maior São João do Mundo, época em que a cidade fica bem mais movimentada que o normal, e aumenta consideravelmente os índices de violência, principalmente nas proximidades da festa.
Entre as vantagens de se morar no centro está a facilidade de deslocamento, uma vez que geralmente se trabalha, faz compras e etc, no próprio centro.
Não tenho exatamente na cabeça quando eu vi o primeiro graffiti, quando eu soube da sua existência. Talvez já estivesse no meu subconsciente, até o dia que eu vi que aquilo poderia ser uma maneira de mostrar pra um número maior de pessoas os rabiscos que fazia nos meus velhos cadernos escolares. Os primeiros traços com spray foram no meu quarto, no quintal de casa, na mureta do Canal de Bodocongó, onde andava de skate com o MSM - Movimento dos Skatistas das Malvinas. Uma oficina com Thayroni "Gorpo", grafiteiro da old school recifense, com mais de 20 anos de graffiti nas costas me inspirou, me passou algumas técnicas, e eu comecei a andar com o mestre pra pintar. Essa época foi um grande aprendizado pra mim, pois, ainda que o estilo não estivesse bem definido, a técnica deu uma boa evoluída. Thayroni ainda hoje é uma grande referência quando se fala em graffiti.
Pensando na malandragem, na ginga, malícia e no que o povo brasileiro faz com tão pouco, surgiu o Zeca enquanto personagem. Negro, de nariz e boca propositalmente exagerados, o Zeca deixou de ser meu alter ego e ganhou vida própria. Por alguns anos, meu principal tema eram os "Zecas" e as "Marias" (versão feminina do Zeca). Porém, não sei se por que o tema limitou minha criatividade ou se esgotou, ou se foi por uma vontade de fazer algo mais abstrato, comecei a estudar as obras de mestres do cubismo, como Pablo Picasso e Georges Braque, e passei a geometrizar meus personagens, que passaram a estar entre o figurativo e o abstrato. Isso me agradou, por que, mesmo eu representando um personagem, suas formas geometrizadas davam margem a outras interpretações; as pessoas encontravam outros personagens dentro do personagem que eu tinha desenhado, onde eu mesmo não tinha percebido. Algo como achar formas nas nuvens.
Pinto personagens geometrizados, formas abstratas, 3 cores: Ciano, Magenta e Branco. Os personagens geometrizados vieram de uma necessidade de deformar, dar características diferentes aos antigos personagens, pintados mais realisticamente (apesar de caricatos), dar margem para outras interpretações das peças. As cores ciano e magenta eu vejo como uma dualidade, um lado masculino e um lado feminino da arte, o branco vem pra dar o contraste.
Gosto de pintar muros abandonados, esquecidos pela sociedade, como uma maneira de revitalizar o que parecia morto, destruído, em ruínas.
Faço parte da UZS Crew, União Zona Sul, criada por Renê Z-nokmorb e Haroldo Sagaz, da qual fazem parte hoje, além deles, Leandro Fatos, Jonathas Tonta, Claudenor Jed e Gustavo Guga."



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Recomenda

Como referências musicais eu posso citar o raggaman paraibano Sacal, que se destaca no cenário nacional com letras que representam bem nosso jeito particular de falar, seja através de expressões típicas, quanto pelo nosso sotaque: 

Nosso amigo DuMatu é outro que faz um rap original da Paraíba e me representa total:

Forró pra Gente Bem é um projeto que faz releituras do grande João Gonçalves, o Rei do Duplo Sentido, que foi tema de um documentário de título sugestivo, que também é título de uma de suas músicas: Ás de Copas.


Documentário Às de Copas de Rodrigo Nunes


Biliu de Campina, é o cabra mais carregado daqui das áreas:

E como nosso querido Jackson do Pandeiro já afirmava, Campina Grande é uma cidade cosmopolita. Guardadas as devidas proporções, aqui de tudo se encontra. E acho que nada representa tão bem esse encontro de culturas e ritmos que tanto enriquece nossa cidade como estas duas bandas: Sex on The Beach, que faz um surf music do caralho em pleno agreste paraibano, e o Aerotrio, que apesar de extinto, ainda toca nos nossos falantes, com seu jazz primoroso:


Nas artes visuais Saulo Ais

Na poesia Jessier Quirino que é apresentado no documentário de Simone Almeida e Sabrina Gomes:

* Fotos e indicações enviadas por Zeca e texto organizado por Emol a partir de entrevista realizada. 

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