QUESTÃO - Salvador - Bahia




“Sou filho de Antônio Carlos e Célia Maria, mais conhecidos como Bebete e Dona Célia, que sempre bateram em uma coisa que eu levo pra vida toda; o lance de identidade racial. Uma coisa que quando você mora no bairro em que eu moro se ouve, sente e não esquece que é ‘eu sou negão, meu coração é a Liberdade’”.
Ávido leitor de historia em quadrinhos, Iali adotou o codinome Questão de um personagem de Caçadores, um título da DC Comics, para assinar seus graffiti. Inicia-se nesta prática, a principio, sob influencias de seu primo San 8 e seu vizinho Scuash, além dos amigos Lee 27, Dpaz e Dissua. Posteriormente, participando do projeto Salvador Grafita, conheceu diversos outros praticantes e cita Baga, Neuro e Mezik como principais referencias dentro do estilo que admira e desenvolve; o Wild Style. Considera o graffiti como vida e simplicidade porque é o que proporciona fazer grandes amizades, pintar coletivamente e ser bem acolhido em diversas comunidades do Brasil.
Como podemos ler acima, herda de sua família o envolvimento com questões étnicas e sociais. Seu pai participou de sindicatos e do movimento negro, e hoje tem seu próprio negocio que também é sua grande paixão; sonorização e sonoplastia. Sua mãe, embora obtendo o segundo melhor resultado no vestibular para direito, sem condições financeiras de manter-se no curso, acabou tendo contato com a área de enfermagem e redescobriu-se nesta área, na qual atua até os dias de hoje. Ambos se conheceram nas festas Black de Salvador, Bahia, e foram viver no bairro Liberdade, onde Questão nasceu em 1982 e reside até os dias de hoje.
Neste que é o maior bairro negro de Salvador, “o combate ao racismo é diário. Apesar de ser a maior capital negra fora da África e ter mais de 85% da população afrodescendente, ainda tem quem ache certo assumir o ‘moreno’ ou o ‘mestiço’ como padrão (...)  Estar na militância é reaprender muitas coisas pra se livrar de preconceitos, aprender a se libertar de rótulos e principalmente a não rotular e nem discriminar ninguém, relata Iali, que pontua organizações como a Steve Biko, Ilê Axé Oxumarê,Terreiro Raiz de Airá e Ceafro como fundamentais neste processo de lutas.
É nesse contexto que se legitima também o trabalho de organizações carnavalescas como Ilê Ayê e Blocão da Liberdade, no caso específico do bairro, e Olodum, Muzenza e Os Negões, entre outras espalhadas pela capital baiana, que surgem com uma proposta cultural, étnica e social de valorização da negritude e da comunidade local, que historicamente sofre com o descaso governamental.
“Ultimamente rola o discurso de misturar a cultura e que a raça é humana e etc, quanto a isso cito Hamilton Borges; ‘se querem misturar a cultura ótimo, mas misturemos também as rendas.’“
E não é apenas a renda que não se mistura. É facilmente perceptível como o circuito oficial do carnaval da cidade é extremamente excludente racial e socialmente. Questão conta que há algum tempo era requisito para participar de determinados blocos, apresentar comprovante de residência e foto 3X4, sendo o cadastro negado quando se constatava o participante negro. Paralelo a isso, os camarotes se expandiam enquanto surgiam as cordas para separar os foliões “pipocas”, como são conhecidas as pessoas que se espremem pelas apertadas e irregulares calçadas a beira da avenida para ver os trios elétricos passarem, dos foliões que pagam altos preços nos abadas, o que permite a eles acompanhar os mesmos trios no asfalto sob uma frágil sensação de segurança. Estas cordas e seus cordeiros, responsáveis por segurar a mesma e garantir que esta fronteira não seja transpassada, hoje é presente também nos blocos afros que desfilam no mesmo circuito, garantindo a divisão do público.
A imagem abaixo ilustra muito bem este assunto com sua faixa humana branca entre as duas negras:
Imagem retirada do blog CENPAH 
“Eu comecei a ver que mesmo dentro desse carnaval desumano ainda tem o lance da resistência, da beleza e magia do meu povo na rua curtindo, brincando e se sentindo valorizado como realmente deve ser, curtindo um som que te diz ‘Ei não é o meu nome e nem psiu meu apelido, irmão, eu sou o mais belo dos belos, o totalizante dessa grande nação, a sensação, pode me chamar de Negão’ (musica na íntegra no link abaixo). Imagina mais de 500 pessoas vivendo isso ao mesmo tempo, uma transformação através da arte, essa é a fundamental importância (dos blocos carnavalescos) para mim,’” afirma Questão.
Atualmente há a proposta de criar um Afrodromo, onde os blocos afros e afoxés desfilariam em um novo local e formato de apresentação. Mas ainda é um projeto que depende de aprovação e investimento governamental.

Baga + Bigod + Questão 
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Documentário A Negação do Brasil

Vídeo Vista Minha Pele produzido pelo CEERT:

Filme Cidade Baixa de Sérgio Machado:

Vídeo Clipe do Grupo Versu2

Música Lembranças de Baga MC

* Fotos e indicações enviadas por Questão, exceto a com os devidos créditos, e texto organizado por Emol a partir de entrevista realizada.

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