Entrevista para site Local Flux

Local Flux é um site novaiorquino que "mostra expressões criativas e pensamentos não convencionais" segundo Joshua, responsável pelo mesmo. Participei de uma entrevista que recentemente foi publicada e pode ser conferida clicando no link: "A dialog between artist & public"

Segue a entrevista original em português:


"Um diálogo entre artista e público"

Contar sobre seu início na arte de rua, você foi fortemente influenciado pela cultura hip hop. Leve-nos de volta no tempo - o que foi a cena do graffiti e do hip hop em geral em São Paulo quando você começou?
Em 1998 e 1999 eu viajava por todo o Brasil como torcida organizada para assistir jogos de futebol. Nos estádios eu via muita pixação com caligrafias diferentes (cada estado do Brasil utiliza uma caligrafia e composição diferentes para pixação) e isto despertou meu interesse em também marcar os lugares onde eu passava. Eu já pintava bandeiras para esta torcida e gostava de me aproximar de tudo que fosse relacionado com pintura.
Eu queria fazer algo que destacasse mais na paisagem urbana e comecei a desenhar algumas letras no papel inspirado nos Thrown Up que via nas ruas de São Paulo.
Em 2000 eu frequentei a Casa do Hip Hop em Diadema (CEntro cultural que se tornou um ponto de encontro semanal para workshops, grupo de estudos e shows dos 4 elementos) e entendi melhor toda a cultura do graffiti e Hip Hop. Então, ao mesmo tempo em que eu aprendia técnicas para fazer graffiti, eu aprendia sobre cultura e política convivendo com pessoas de diferentes gerações e conhecimentos.
Nesta época a AV Crew (Arte Vandalismo Crew) era a principal crew da região onde eu vivo (Região ABC, suburbio industrial muito conhecido pelas greves de trabalhadores na época da ditadura militar no Brasil) e fazia grandes murais e muitos bombs influenciando todos por aqui. Eles organizavam também uma mostra anual de graffiti em Santo André que reunia grafiteiros de Sao Paulo e de outras partes do Brasil para pintar centenas de metros de muro. Era fantástico, ver diferentes estilos e técnicas reunidos em um local. Este era o ambiente quando comecei a pintar nas ruas entre 1999 e 2000.

Desde então você progrediu. Me conte sobre a viagem de como você chegou no seu estilo atual.
Eu desenhava todos os dias, personagens, letras, cenários, texturas. Eu tentava fazer "wild style" e letras em 3d usando círculos como referencia porque isso não era comum. Então eu via alguns bichos em meio as letras. Cada vez mais eu deixava estes bichos aparecerem e não dava muita atenção para as letras porque elas funcionavam apenas como motivo para começar o desenho. Então experimentei outros motivos para isso, como formas geométricas e desenho cego.
Eu também estudava o mesmo desenho com curvatura de linhas distintas e percebi que elas me causavam sensações diferentes. Dentro deste desenho experimentei formas diferentes de pintura usando sempre as poucas latas de spray que eu tinha no momento, porque no inicio era muito difícil comprar tinta spray porque os preços eram altos. Isto me deu uma boa noção para trabalhar com variedade de cores, afinal era preciso criar algo usando quantidade pequena de cada uma das cores que eu possuía.
Fiquei muito tempo nestes estudos técnicos, buscando me afastar de influências visuais externas e ser "eu puro" naquilo que eu desenhava e pintava. Isso me trouxe boas descobertas técnicas e desenvolvi um "estilo" de pintura, mas depois percebi que é impossível ser "eu puro" porque vivemos em grupo e temos séculos de vida em sociedade que nos influencia, conscientemente ou inconscientemente. Assim, percebo que o que atualmente faço tem influências de minha vida em sociedade, vagam em minha memória símbolos religiosos, cores do futebol, imagens de carnaval, fragmentos de arquiteturas. Enfim, tudo que vivi e tenho em meu consciente juntamente com tudo que há no universo inconsciente

Você valoriza a arte pública por seu impacto social. Qual a importância da arte de rua para as comunidades em que ele é apresentado?
A indústria cultural e meios de comunicação de massa também tornam a arte pública. Elas publicam uma arte com conteúdo sujo que busca despertar um circulo vicioso entre consumismo e padronização humana. Eles objetivam o lucro e manter toda injustiça que vemos pelo mundo.
Sei que a arte não mudará o mundo, mas ela deve estar em sintonia com as transformações que buscamos. A arte de rua não encomendada é a arte publica que pode levar algo com conteúdo mais diversificado e relevante para cada comunidade porque não tem interesses financeiros. A arte de rua relevante aguça a sensibilidade, provoca reflexões, gera experiências e cria diálogos com objetivo de expandir a capacidade crítica e criativa das pessoas. A arte de rua relevante não compactua com a miséria intelectual e contribui no desenvolvimento humano de cada comunidade.

Qual a importância deste impacto em seu processo criativo?
Eu acredito que a arte publica não pode ser um monólogo do artista. A arte publica pensada como dialogo entre artista e publico torna possível o desenvolvimento humano para ambos.
A reação das pessoas é que me diz se minha intenção com a arte esta resultando nos objetivos que pretendo. Atualmente isto tem guiado muito meu trabalho.
O desafio não é simplesmente transformar uma ideia em obra de arte, mas saber se esta arte provoca alguma "emoção" em outras pessoas e também saber se esta "emoção" provocada aconteceu de acordo com a minha intenção.
O artista que não pensa em seu público fica escravo de sua vaidade.

Você é um dos coordenadores da organização POVO que está envolvida com muitos projetos culturais e sociais; como surgiu a POVO e o que é isto hoje?
POVO é um nome de duplo sentido. Ao mesmo tempo em que define o conjunto de pessoas (nação), é também a sigla para Pessoas Organizadas Vencem a Opressão.
A princípio eu assinava POVO nas ruas como crew para dizer simbolicamente que deveríamos ampliar nosso grau de organização. Não pensar como pequenas crews, mas pensar como organização social maior que realizasse atividades além do graffiti. Ao mesmo tempo POVO dizia que eu era membro de uma crew que todos são.
Atualmente algumas pessoas apenas escrevem este nome na rua, mas outras se identificam com a prática e realizamos projetos de forma colaborativa ligados a arte, cultura e educação.
Realizamos eventos utilizando o graffiti como ferramenta para discutir assuntos sociais. Realizamos uma publicação com textos poéticos escritos por praticantes dos 4 elementos do Hip Hop e distribuímos este material em espaços culturais e escolas nas periferias da cidade.
Estes projetos não são frequentes porque não temos apoio financeiro, mas seguimos com as próprias forças para continuar eles.

Você chama o Brasil de sua casa, mas você gostaria de trabalhar em outras regiões?
Sim, eu quero trabalhar em outros países. Quando surgir algum projeto interessante eu poderei trabalhar em outra região
Eu digo que apenas São Paulo era meu lar porque o Brasil é grande e eu não conheço todo ele. Por isso, há mais de 2 anos iniciei um projeto independente chamado Rolê Brasil. Vivo meses em uma capital brasileira (atualmente na região nordeste do país) e outras cidades próximas a estas. Assim posso entender a cultura de cada local e saber na prática um pouco a história do país em que vivo. Isto influencia muito meu trabalho.
Então ainda falta muito para eu conhecer do Brasil e dizer que ele é meu lar.

Sobre projetos colaborativos, você ainda aprende com cada um deles? influencia em sua evolução?
Projetos colaborativos são sempre importantes para o desenvolvimento do indivíduo e do coletivo. Importante para conhecer novas formas de expressão, desafiar o pensamento e a prática de cada artista.
Eu trabalho sozinho, mas sempre estou atento a novas experiências coletivas também.
O que é desafiador me atrai. 

Qual será o seu passo seguinte?
Eu não gosto de pensar em futuro, por mais difícil que isto seja. Eu gosto das surpresas que a vida vai apresentando de acordo com cada passo que dou. Por isso me dedico apenas a "caminhar e sorrir" no tempo presente.
Produzo em estúdio quando estou em São Paulo e pinto nas ruas das cidades por onde passo no projeto Rolê Brasil. Mas busco outros tipos de intervenção e provocação para as pessoas. O projeto A Força da Palavra me traz bons resultados nisso, mas quero desenvolver outros.
Eu me envolvo um pouco com literatura e penso em maneiras de levar ela para a rua. Gosto de vídeo também e há algum tempo estou produzindo um pequeno vídeo em colaboração com outros artistas.
Enfim, esperemos para saber onde tudo isso chegará.






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