Pão e Tinta - Recife - PE

Disseram que teria Pão e Tinta no Recife. A notícia correu mundo. Vespas* migraram do sul. Galo* não cantou, mas por lá pintou. Larvas* se desenvolveram. Até Sponja* criou vida e apareceu entre tantas outras espécies no local. Um Arem* se formou e 100Parar* chegou gente. Gente faminta por trigo e pigmento.
Foi após o carnaval que aconteceu. Depois da festa da carne, teve a festa a Pão e Tinta.
Foi lá no Pina. Eu também fui pra lá. Não que me faltasse o pão. E embora carecesse de tinta, não foi esse o motivo também. Fui pro Pina por fome de viver lugar, conviver pessoas. Fome de vomitar subjetividade e achar que isso alimenta alguém. Tem gosto pra tudo.
Fui pro Pina porque é nóis. Já foi dos nossos, dos filhos daqui. Já foi de europeu invasor. Já foi de senhor de engenho. Mas hoje é nóis. É o povo. Povo que teima. Teima em ser alegre. Teima com a gentrificação, teima com os incêndios. Teima tanto que até com o mar teimou, só pra teimar mais longe ainda com os parasitas da capital. Se derrubar de dia, a teimosia constrói de noite. E embora quisessem lhe fantasiar de Formosa, ela teimou e se fez, ironicamente, Brasília Teimosa.
No dia do acontecido, o tal Pão e Tinta, o sol tava igual a especulação imobiliária. Não nos queria por ali. Empurrava-nos para as sombras. Mas no espírito do lugar teimei, finquei com cores meu barraco. E o muro era uma favela só. Uma maloca querida “dim dim donde nóis passemo (um) dia feliz de nossa vida”.
Agora vou contar um segredo. Só um. Foi no meio da tarde que notei. No pão também tinha mortadela. Constatado o luxo. Pão, mortadela e tinta. Pra que mais? Porque mais?
Ahhhh lelek lek lek, porque nóis é teimoso! Então ia aparecendo coisinhas mais. Mas aí eu já não conto o que. Não conto porque algumas geram BO, outras, ciúmes. Algumas porque não sou dedo duro. Outras porque não valem a pena mesmo. E tem mais. Não conto porque gera curiosidade. E curiosidade faz quem não foi, se mexer pra ir no próximo.





*Nomes de alguns grafiteiros e crews participantes do evento
**Texto baseado em relatos de moradores locais e informações tiradas da internet sobre a historia do bairro Pina e sua vila Brasilia Teimosa. 

Postado em 02/03/2013

2 comentários:

  1. Poxa, pois deixa de ser teimoso e conta o que mais tinha! rss
    Gostei do texto! Sabe 'brincar' com as palavras, hein? Achei literário...

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