Aprendizados com Conceição Evaristo em Ponciá Vicêncio.


 Durante a produção de pinturas tenho praticado o tempo da experiência, sem pressa e com as pausas necessárias. Sinto a necessidade de cuidar para que esse tempo da experiência não seja agredido pelo tempo do relógio ou do calendário. “O humano não tem força para abreviar nada e quando insiste colhe o fruto verde, antes de amadurar”.


A leitura de Ponciá Vicêncio reforça em mim essa ideia, entre outras que desperta, e de alguma forma percebo sua história em minhas pinturas. Percebo-me interrompendo o manuseio da arte e perseguindo “o manuseio da vida, buscando fundir tudo num ato só.” Futuro e passado são como linha de pipa embolada diante de meus pés, se fazendo presente a ser praticado.

O texto de Conceição é algo tão íntimo para mim, tão próximo da história que sinto dar continuidade, que fui espontaneamente partilhar com minha mãe, ler alguns trechos do livro para ela que nunca leu um. Li e me pus a ouvir as histórias antigas, das roças de Minas Gerais, do tempo das bonecas feitas de espigas de milho, de guardar o fogo sob as cinzas, de raspar o tacho dispensando o zinabre, de meu tio que também via o próprio vazio. Assim, Conceição Evaristo, nesses momentos de minha escuta diante de mamãe, se tornou para mim mais uma tia em volta do fogão à lenha, tomando café em cuia de coité e contando os causos junto com vovó e as primas mais velhas.

É dessas histórias que trago no passo, que faço minha poesia, sentindo a linha construída pelo encontro das cores, como as experiências que se sobrepõem em mim. Sigo compreendendo a vida e buscando entende-la como "matéria argamassa de outras vidas".


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Publicado em 25/03/2021.

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