Encruza

série de intervenções urbanas com tinta spray sobre armário de distribuição telefônica

2013 (em processo)


Na série Encruza, me aproprio de um utilitário comum da paisagem urbana, intervindo sobre ele para dar-lhe uma nova função simbólica. Ressignifico esses armários a partir de pinturas-rituais, transformando-os em totens-carrancas.

As intervenções combinam a materialidade dos armários com a simbologia de minha poética. Quase sempre instalados em esquinas, eles têm a função de guardar e proteger uma encruzilhada de cabos que conectam e distribuem as linhas de comunicação. Ao pintá-los, eu os ressignifico como totens, que são fundamentalmente símbolos de conexão, que atuam como elos entre a natureza visível e a invisível, e servem para lembrar e transmitir conhecimentos essenciais sobre origens e identidade, conforme o conceito de totemismo. Isso dialoga com minha busca por reminiscências ancestrais diante do soterramento colonial-cristão. Nesse processo, a ação-pintura age como um rito particular, onde me proponho à intuição criativa como forma de cogitar os mistérios e como possibilidade de acessar e materializar observações de antepassados que possivelmente perduraram por gerações até mim.

Ao pintar esses armários, ressignifico-os também como carrancas, que servem para afastar o perigo e são criadas à imagem e semelhança daquilo que se teme. As características pontiagudas e animalescas de minha pintura principiam em parte inspiradas por memórias de infância sobre a curiosidade e o medo da carranca como síntese do diabo, atuando como um gesto de enfrentamento e domínio desse temor. A ação pictórica, nesse caso, é um rito e materialização para afastar as crenças incutidas por um condicionamento cultural, um gesto libertador que aceita os mistérios que a razão não alcança como parte da natureza que sou.